quarta-feira, 23 de outubro de 2013

1 - Mendigando.

Casa cheia, como de costume. Ela vivia dando essas festas e eu vivia indo. Um dia eu achava que ela ia querer olhar pra mim.
Ela tinha aqueles sorrisos de canto de boca. O que mais me chamava atenção. Parecia que ela debochava do mundo, como se nada tivesse à sua altura. E se vestia como uma mendiga, acho que também era pra provar que nada faria justiça no seu corpo perfeito. E que curvas eram aquelas? Jamais seria uma modelo. E nada de assimetria. Parece que com ela o negócio era simplesmente sair de todos os padrões.
E como eu seria a escolha menos provável no universo dela, eu apostava tudo nisso. De tão incomum essa possibilidade, eu tinha aquele fiapinho de esperança. Um dia ela ia olhar pra mim.
Ela conversava alto. Não daquele jeito que incomoda, mas daquele jeito que dá pra você ouvir a conversa e ver que está melhor que qualquer uma que já teve. Gesticula. Troca o pé de apoio. Tira o pé da sandália e coloca em cima do outro. Ela leva as mãos na cintura, torce o pescoço. E dá uma olhada pra tudo. Parece que pode ver o mundo quando quer.
-Oi! Eu achei que você não viesse! Eu sei que você acha essas minhas festas chatas e eu mais ainda, mas eu preciso do meu melhor amigo aqui!
Ela falava isso segurando minha mão. E ela me julgava seu melhor amigo porque um dia eu disse que não trocaria minha namorada da época por ela. Afinal, é o certo a se dizer, não? E eu também costumo falar coisas desse tipo pra ela achar que alguém no mundo não idolatra ela. Nem que seja completamente mentira.
-Eu te odeio, você está igual uma moradora de rua, quase te dei uma esmola quando te vi andando pra cá.
Ela riu alto, as pessoas do lado me olharam. Com inveja eu pensei. Eu sentiria inveja dela segurar a mão de alguém assim, com tanta intimidade.
-Ei, aproveitando que você chegou, não quero perder tempo, vem cá!
-Cá é onde, einh Virgínia?
-Cá é onde eu quero te contar uma coisa, vamos pro quarto.
Ela me puxou pela mão e subimos aquelas escadas torneadas. Atravessamos um corredor com uma obra de arte que ela idolatrava e chegamos no seu quarto. Ele devia dar o tamanho do meu apartamento, ou melhor, com a varanda, eu garanto, maior que o meu ap. Ela sentou na namoradeira branca que eu ajudei a escolher e deu dois tapinhas do seu lado. Eu não queria sentar. Logo que sentei ela disse:
-Antônio, vou me mudar!
-O que?
-É, vou me mudar. Meu pai liberou minha conta e disse que eu podia sim ir conhecer a Europa. E eu vou.
-Não, é claro que você não vai.
-Por quê?
Esse porque dela foi dolorido. Como se me implorasse pra dar uma boa razão pra de fato ficar. Ou só pra ouvir uma lamúria minha e dar o sorriso ensimesmado.
-Porque você não pode!
-Ei, ei, ei. Que que tá acontecendo?
Abaixei a cabeça, me faltou ar. Por um segundo eu achei que eu ia contar o quanto eu queria que essa viagem fosse nossa. Achei que eu ia jogar fora todos nossos anos de 'amizade'. Contei até 100, ou mil, ou até eu perder a conta.
-Tá acontecendo que eu odeio essas festas. E pensando bem, vai ser bom você ir. Não vou ter que ir em nenhuma outra festa chata.
-Antônio, era isso mesmo que você queria dizer?
-Claro! Ou você estava esperando um pedido desesperado de 'fique, por favor, eu te amo'?! Eu não sou esses fortões de olhos claros não, seu canto de sereia não cai sobre mim!
-Certo!
Ela levantou e desceu  as escadas, correu pro bar e pegou uma vodka. Não uma dose, uma garrafa. E da janela eu a vi bebendo, dançando, rodopiando. Como se tivesse tirado um peso das costas. Eu das suas costas. E estava livre pra viver. Mal sabia eu o que me esperava em casa.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Rodo cotidiano.

Talvez seja esse mesmo o meu problema. A vida, saca? É que é assim, me saio bem de grandes situações, tanto boas quanto ruins. Mas falou em rotina. Vish. Não tenho conserto. Tento me reinventar mas continuo a mesma. E me frustro porque não consegui. Se consigo, me olho no espelho e noto que não sou mais eu. Acho ruim, tenho aversão à mudanças. Aí tento mudar alguma coisa que não seja em mim. Me chateio porque não consigo mudar as pessoas. Se eu consigo, fico apegada ao passado e à ideia do quanto eu era feliz e não sabia. Se eu me afasto e não me procuram eu fico revoltada. Se me procuram penso que estão precisando de mim. Eu não sei o que fazer do cotidiano. Não sei dar um passo na frente do outro quando não é pular só no meio dos azulejos. Não entendo direito como funciona essa coisa de acordar cedo, trabalhar, ficar cansada e ir pra casa dormir. E cadê a cervejinha? Cadê a madrugada que eu não vejo há sei-lá-quanto-tempo?
Eu sei, eu sei, reclamo volta e meia. Mas é por não saber o que fazer dos dias que são iguais aos outros. Não sei ser igual. Não sei ser diferente. E aí?

terça-feira, 7 de maio de 2013

friendzone.

-Você tem o mundo nas mãos, sabia?
Toda vez que eu falava algo desse jeito ela corava as bochechas, eu não sei, parece que ela sabia de tudo, mas não admitia. Ela se importava demais com a opinião dos outros. Precisava realmente parecer boa pra se aceitar assim.
-A gente é amigo a tanto tempo e você é uma das únicas pessoas que consegue me elogiar como pessoa, não como garota.
Senti minha perna em tremer, eu tinha TOC e fazia isso sempre que nervoso. Além da minha dislexia que dava um jeito de engolir muitas letras nas minhas frases. Eu fazia isso porque eu gostava dela. Gostava de cada pedacinho dela. Do cabelo que cada semana ela usava de uma cor e de um lado. Os chinelos havaianas gasto que ela nunca gostava de trocar. Daquele tanto de furo na orelha e penduricalhos nos pulsos. Dos devaneios momentâneos que ela gostava de ter. Pisquei duas vezes e olhei pra ela.
-Ainda acho que desde o início a gente tinha que ter criado apelidos. Adoro apelidos. Eu acho que poderia ser chamada de "rosa", meu sonho era que a minha vida fosse rosa. Você poderia ser... Não sei. Deixa eu olhar pra você e ver cara de quê você tem...
Droga. Ola estava olhando fixamente pra mim, provavelmente vendo minha testa e bigode suando.
- Primeiro eu pensei em azul. Porque sempre que eu penso em azul eu lembro do céu e do mar. Que pra mim é infinito, igual suas ideias. Mas te olhando assim de perto acho que tá mais pra verde, já que parece que você tá passando mal. Tá acontecendo alguma coisa?
Claro que estava, eu amava ela. Amava a mecha curta do cabelo atrás da orelha. A falta de simetria no seu rosto que dava um toque único e sutil pra tanta beleza junta.
- De onde tirou isso? Vamos terminar logo esse salgado porque tem trabalho agora e você sabe que tô precisando de nota.
-Você vai ser minha dupla né?
Hahaha, eu seria a dupla dela pra vida inteira, acordar juntos e dormir sentindo o cheiro de morango que ela tinha, faria dupla nas contas e nas viagens, nas noites de natal e ação de graças.
-Não devia, já que você não sabe a matéria, mas se for preciso te carrego nas costas.
-Você é o melhor amigo que alguém poderia sonhar!
Acho que não.