Queria escrever sobre coisas que eu estava sentindo mas esbarrei no vazio que ficou quando eu fui embora. Foi aí que percebi a imensidão do espaço que você habitava em mim, porque agora estou um pouco oco. Você preenchia o lado esquerdo da cama, o travesseiro mais baixo, meu par de meias pretas, meu moletom vermelho. Você era a cadeira do outro lado da mesa para jogar, fumar, tomar uma, comer, rir. Você era a maior apoiadora dos meus projetos, quem mais me incentivava a perseguir meus sonhos, hobbies, trabalhos. O banco do carona fica vazio e ninguém mais percebe que mandei lavar o carro, nem me pergunta se aquele vazamento está contido, ou se o pneu murchou de novo. Não tem ninguém para brilhar os olhos quando faço um filtro dos sonhos, ou para ficar triste que o cavalo do jogo morreu, ou torcer pela vigésima vez que tento ganhar no dominó. Não tenho com quem assistir aquelas séries que deixamos pelo meio do caminho, nem como comentar daqueles livros (inclusive, temos que destrocar alguns), por isso fui assistir outras coisas, das quais eu sei que nem se eu quisesse, você não gostaria de saber. Não tenho de onde voltar com o dia claro, todo desgrenhado após fazer amor no carro depois de uma noite de cervejas e urgências. Não tenho "bom dia amor", "tô pronta, pode vir", "nem acredito que vou te ver". Não recebo diamante negro no meio da tarde, nem donnuts, nem visitas inesperadas no meu trabalho que me deixam desconcertado. Só que também, não tenho que adivinhar qual o humor que terei que lidar no dia, não preciso registrar onde vou, com quem vou. Não preciso preocupar com meu destino, nem como as minhas horas gastas com jogos, muito menos com o nosso futuro. E foi assim que fui mudando de vida, fui indo para outra direção, a qual você permanece cada vez mais no vazio, enquanto eu preencho ele de atividades extracurriculares para que nada me faça, nem por um instante, te querer aqui de volta.
terça-feira, 3 de maio de 2022
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022
um pouco mais
Não sei ficar no raso. No mar, na piscina, na amizade, no amor. Só sei mergulhar, só sei que a sensação de me jogar e afundar é o que me move.
Leio livros intensamente, enfio a cara na cachaça, faço ligações de horas, bebo uma garrafa de café, fumo um maço, coloco três brincos, me visto de cores vibrantes. É que ficar no raso, com pouco, de leve, me causa incômodo. Parece que estou vivendo pouco, parece que está faltando alguma coisa.
Faço curso de finanças, de lettering, de crochê, de escrita. Tenho várias paixões, vários assuntos me interessam. É que se não for pra ser emocionada, eu prefiro que não seja. Se não for para ser intenso, o morno não me atrai.
Dou bom dia com coração, mando mensagem para minhas amigas dizendo o quanto eu as amo e admiro, ligo para minha família de vídeo para sentir suas emoções, choro muito na terapia, abraço minha cachorra com todo amor do mundo, beijo com intensidade, conto do meu dia como se fosse o mais interessante, leio textos e me emociono, assisto uma temporada inteira de algum seriado em 1 a 2 dias e depois fico triste porque acabou. É que eu preciso das emoções e dos sentimentos.
E aí quando acaba eu fico triste, quando me despeço eu fico mal, às vezes é até dor física mesmo, angústia, porque de bom e de ruim é tudo muito. E eu sequer julgo quem não consegue me entender, ou me acompanhar, ou decide me julgar, não é sobre vocês, é sobre mim.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
física&química
É melhor não, mas a verdade é que eu gostaria de te ver de novo. Só para conferir se a mão iria continuar suando, o coração acelerado que chega a fazer a camiseta pular, e o sorriso ora fica estático, ora treme. Queria saber se quando eu te ver sorrir, se vai me dar uma vontade absurda de sorrir também, daquelas que mesmo quando você segura toda sua feição, ainda assim, os cantinhos da boca ficam incontrolavelmente virados para cima. Precisava saber se, quando você descansar os braços para cima, vai me dar uma vontade louca de colocar o meu corpo encostado no seu, e então vou precisar me controlar mentalmente e dizer para mim mesma que eu consigo permanecer onde estou. Fico pensando, quando nós dois cruzarmos novamente, será que cada poro do meu corpo já esqueceu o seu cheiro? Será que cada fio de cabelo já conseguiu desvencilhar dos seus dedos, se cada peça de roupa minha já não se lembra do chão do seu quarto, se meus pensamentos sozinha já sabem que devemos fantasiar sobre outra pessoa? É, acho melhor não cruzar o meu olhar no seu, já que eu não posso garantir como cada parte de mim reagiria.
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