quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

vinho no copo americano

"Hoje é sobre você". Não era.

Nunca foi sobre mim, subindo a rua da igreja, jogando poker, vestindo sua blusa de frio ou assistindo Elizabeth Town. Nunca foi sobre o quanto o meu estômago revira, ainda hoje, quando você diz linda. Nunca foi em qual cenário teria funcionado, ou o que nós poderíamos ter feito diferente. E mesmo quando eu tento deixar tudo na primeira pessoa, dizer o que eu me lembrei, o que eu senti, o que eu pensei, o que eu quis, a conjugação verbal está toda errada, em tempo e em pessoa. Porque eu não vivi sozinha, eu não senti sozinha, eu não te quis sozinha. E as reticências, com essa mania de buscar o ponto final, sem saber que vão deixando um monte de vírgulas no caminho, vão encontrando seu modo próprio de revirar, reviver, revelar. Desculpas, memórias vividas e apagadas abrem um parêntese, que nós não somos nem um pouco capazes de fechar. Porque eu tenho pensamentos recorrentes sobre você, e era exatamente isso que você queria ouvir. E você fez as perguntas corretas para que as respostas fossem reveladas, me despindo de qualquer desculpa ou pudor. Você me colocou exatamente onde você queria, porque você queria, e porque você já sabia todas as coisas que eu não te disse, e não te revelei antes, porque elas estavam esperando você dizer o seu pensamento de uma outra vida: "Essa mulher é minha".

terça-feira, 5 de julho de 2022

em + ela = nela

Ela quebrou o ovo e caiu uma casquinha na frigideira. Foi assim que ela começou a chorar. Porque caiu um pedaço da casca na frigideira. Assim ela percebeu o quanto estava vulnerável. Fungou, limpou o nariz na manga do moletom vermelho e olhou na janela, a tampa do alçapão do prédio vizinho estava torta. Há dias fazia frio lá fora, naquele dia fazia frio ali dentro, dentro dela. Mais tarde, ainda no mesmo dia ela se deparou com algumas coisas que, no seu íntimo, pareciam estar sangrando, mesmo quando ela dizia ao mundo que não estava. Ela estava toda à flor da pele, tudo poderia ser um risco iminente. Decidida, abriu o editor de textos e ao ver a página em branco ela pensou o quanto se sentia daquela exata mesma forma, em branco, nula, vazia, rasa e ao mesmo tempo profunda. Escreveu meia dúzia de palavras e viu que não ia funcionar. Vagou pelo apartamento, sozinha, em silêncio. Permaneceu na penumbra por mais alguns minutos, adaptando as vistas ao breu, e chorou novamente. O que doía agora já não eram os outros, suas decisões, suas atitudes, seus escândalos, o que incomodava agora era o que estava do lado de dentro, a tempestade que insistia em cair dos olhos porque transbordava dos pensamentos e sentimentos, a sensação de desespero ao realizar a sua responsabilidade em cada atitude que a colocou ali, no meio de uma sala meio vazia, numa cidade que não é sua, solitária e descontente. Ela já tinha algumas ferramentas para lidar com tudo isso, mas naquele momento ela não tinha forças para se lembrar de qualquer cartão de enfrentamento. Voltou para a cama, deitou encolhida, dormiu torcendo para que amanhã ou depois fosse diferente.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Será só imaginação?

Disseram tanta coisa sobre ela que eu não sei o que devo acreditar. Disseram que ela faz convites diferentes, sem pretensão. Me falaram que ela fala sobre assuntos sérios no meio de um domingo de preguiça. Ouvi dizer que ela espera o teor alcoólico para falar algumas outras coisas. Fiquei sabendo que ela chora sozinha, ri acompanhada e escreve num após. Soube que ela tenta, de verdade. Escutei por aí que ele não desiste do que ela quer. Espero que algumas partes sejam verídicas.