quarta-feira, 7 de março de 2018

8 - Sem despedidas

Acho que perdi um pouco a noção de tempo e espaço depois daquela tarde na casa da Virgínia, pode ser que tenham se passado dias ou meses desde que descobri o fatídico noivado. A questão é que eu ocupei 100% de todo o meu tempo, me ofereci para dois trabalhos freelancer, continuei no de jornalista, voltei a sair com os caras da época da faculdade, me encontrava com uma ex qualquer coisa que não chegou a ser um relacionamento. As coisas estavam meio que fluindo e eu tinha certeza de que dessa vez eu iria abafar tanto aquele sentimento que ele morreria, desidratado.
Há alguns meses eu tinha feito uma matéria sobre a Cracolândia, foi uma atividade que me dediquei bastante e que consequentemente me manteve ocupado, e me rendeu uma indicação a um prêmio, que eu sequer estava esperançoso mas já muito satisfeito em ter sido cogitado. A noite da entrega da premiação teria um jantar, festa de gala mesmo, e me foi aconselhado a necessidade de uma acompanhante, aquilo me causou um frio na espinha. Evitei pensar muito porque era isso que eu tinha feito nos últimos tempos, mandei uma mensagem para a Luna (a ex qualquer coisa que era atual qualquer coisa) e a convidei para o evento, ela sequer exitou em dizer que me acompanharia, eu sabia que podia parecer falsas esperanças para ela, mas ela me ajudava a me manter longe do que me machucava, então, como egoísta que eu precisava ser naquele momento, eu estava a usando.


Aluguei um terno completo, até colete pro tal evento, comprei um par de sapatos novos e aproveitei a fase consumista e me dei de presente um novo perfume. Às 5 da tarde fui buscar a Luna de taxi, quando ela saiu do prédio me faltou o ar levemente, no final das contas ela era mais bonita do que eu costumava enxergar, enfiada num vestido justo, preto, tomara-que-caia (mesmo), ela parecia mais sofisticada do que com a minha camiseta no meu sofá velho. Quando chegamos na porta do Teatro Municipal, haviam alguns fotógrafos e um ou outro artista, aquilo até parecia outra realidade. A mesa do meu jornal estava bem próxima do palco e com o meu nome em destaque. Apresentei a Luna como uma amiga e notei ela fechando a cara, eu não poderia fazer diferente mas acho que ela ainda esperava por isso. O meu péssimo hábito de me embebedar começou a aparecer e eu garanto que já tinha passado da conta quando disseram que em 15 minutos eu teria que ir para os bastidores para a apresentação da premiação. Levantei meio zonzo da mesa e caminhei ao banheiro quando olhei pro fundo do salão e vi a Virgínia.
Ver a Virgínia era, nesse momento, uma coisa que eu queria muito. Tanto que nem consegui raciocinar direito quando andei com passos largos na sua direção. Um vestido longo, branco, com um laço em um dos ombros, deixando o outro desnudo, os cabelos presos num coque mal feito e apenas o par de brincos de Dona Cecília. Ela estava perfeita, como se até os fios que estivessem fora do lugar foram colocados lá de propósito, seus gestos de quem sabia o que estava fazendo e ainda fazia com toda a majestosidade que só ela tinha. Seu sorriso largo divertindo todos a sua volta. A música parecia ter parado quando os olhos dela encontraram os meus.
- Te parabenizo agora ou após você receber o seu prêmio? - Ela disse me oferecendo os braços abertos.
- Não vou ganhar, me dê logo esse abraço.
Ambos ignoramos o nosso último encontro, conversamos sobre o prêmio, a noite, a vida e ouso até dizer que falamos sobre o tempo. Eu tinha tanto medo em perguntar sobre o possível casamento que desviei de qualquer assunto que fosse mais pessoal. A Luna tocou minhas costas de leve e eu dei um pulo.
- Ei João, estão te aguardando para dar início às premiações.
Eu sei o que ela estava fazendo, marcando território, ela havia conhecido a Virgínia da outra vez que nos relacionamos, e mulher sabe dessas coisas, ela já percebia o que talvez nem eu notava naquela época. Nós três nos olhamos, sorrisos contidos e discretos e então decidi sair sem despedir, porque eu voltaria ali para conversar mais, assim que desse.


Não entendi porque pediram para aguardarmos todos nos bastidores, eram vários prêmios e não tinha necessidade de esperar por tanto tempo. Levei um copo de whisky e pedi ao garçom para continuar trazendo, conversei com outros jornalistas que também pareciam impacientes pela demora quando ouvi meu nome no microfone do lado de fora do palco, o que era a deixa pra eu sair. Faltando um passo pra sair das cortinas percebi que estava indo com o copo, o deixei no chão e saí com um sorriso presunçoso, sim, eu estava completamente bêbado. Enquanto apresentavam o básico de cada matéria da categoria eu procurava pela Virgínia no salão, embora a Luna estivesse bem a minha frente e tirando várias fotos do seu celular, eu não conseguia encontrar o meu foco. Pego de surpresa, ouvi que o vencedor era João Felutti em sua matéria sobre a Cracolândia. Eu havia ganhado o prêmio e me aguardavam com o microfone para um breve discurso que eu sequer havia preparado.
- Boa noite e meu muito obrigada, principalmente ao Jornal, que sempre me deu oportunidades para ser o profissional que eu sempre quis. é uma honra estar nesse palco.
Antes que alguém dissesse mais alguma coisa eu saí do palco e fui até a minha mesa, todos vieram me abraçar, alguns disseram que já esperavam por isso, a Luna me deu um demorado beijo na boca, mas eu só olhava para os lados. Foi então que a Virgínia apareceu, com duas taças de champanhe, me ofereceu uma e brindou comigo em seguida. Não me abraçou, não me deu um aperto de mão, nem abriu a boca para me parabenizar, segurando a taça na altura dos ombros eu pude perceber, ela estava sem aliança, o que me encheu com um sentimento que eu ainda não sabia distinguir qual. Ela me deu um beijo na bochecha e saiu, ainda sem falar nada. Imaginei que fôssemos nos falar muito em breve e imaginei certo. Aquela noite foi incrível. Fui pra casa, acompanhado da Luna, que não estava muito contente comigo, eu estava tão bêbado que sequer tirei os sapatos para dormir e ainda assim foi um sono sem comparações.

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