terça-feira, 11 de março de 2025

Trend no meu lugar certo

Saindo do óbvio, faço a trend de ter me encontrado com meu eu do passado para tomar um café aqui. Bem mais honesta comigo. Eu, Sheila, psicóloga, no meio dos 36 anos, me encontrei com a Pricilla de 15 anos para tomar um café.  Eu pedi um café sem açúcar, ela pediu uma Coca. Ela me perguntou se agora a gente gostava de café, ainda mais sem açúcar e eu sorri dizendo que sim, com um toque de canela, e ainda contei que agora, refrigerante é algo que quase não consumo mais. Ela me perguntou o que eu fazia da vida, e contei que sou psicóloga clínica, que percorri longos caminhos até chegar aqui, que antes disso fiz outra faculdade, a de Direito, mas que ainda faltava algo para os meus olhos brilharem ao trabalhar, e que finalmente eu tinha encontrado. Ela ficou receosa, já que se lembrou das experiências que teve com terapias prévias, mas contei para ela que ela teve ótimas terapeutas depois e que isso mudou a vida dela, e que após o curso, o meu posicionamento sempre foi ser o completo oposto das posturas que a feriu no passado. Ela me perguntou se eu conseguia me achar bonita, capaz, suficiente. Aí eu marejei os olhos porque me lembrei o quanto ela ainda sofreria sobre isso. Contei que foi um processo, que precisei entender quem eu sou, como sou, aceitar minhas potencialidades e meus pontos de melhoria, e só aí consegui ter autoestima e viver bem comigo mesma. Mas não pude deixar de acrescentar que tem dias que ainda duvido de mim mesma, que as velhas falas mentais surgem mas que consigo manejar, porque agora tenho ferramentas para me regular. Ela me perguntou se eu encontrei o amor e ao contrário do que eu esperava, não foi o choro que surgiu, e sim um largo sorriso. Eu encontrei o amor, em tantos lugares diferentes, mas ela não entenderia ainda! O amor que ela queria saber era o amor romântico, e sim, também encontrei ele, mas eu encontrei o amor próprio, o amor pela vida, o amor pelas pessoas, o amor pela profissão, o amor pelos bichinhos, pela natureza, pelo cantar dos passarinhos, por pegar a rodovia cantando no volume máximo, por deitar com meus pais na cama deles, por ter porto seguro na minha irmã, por ter a melhor amiga como alma gêmea, por voltar a fazer crochê, e em tantas outras situações. A resposta se limitou a "sim, encontrei, quase todos os dias da minha vida". Por fim, ela me perguntou se eu era feliz. Ah Pricilla! Te contei que sim, muito! Não o tempo todo mas muito. E mesmo sabendo que isso parecia algo inalcançável para ela, que não imaginava que eu chegaria tão longe, foi um acalento. Terminei o café e falei "querida, sei que a desesperança vai bater a porta, que você vai pensar em desistir várias vezes, que vai achar que não tem mais solução e que não vale a pena insistir, mas vai por mim, tem vida demais para ser vivida, e mesmo estando aqui, 21 anos na sua frente, falo com tranquilidade que ainda tem vida demais para ser vivida". Nos despedimos, e há um bom tempo eu não sentia tanta esperança de vida.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Arco

Eu fui atravessada. Assim como a flecha que fora, em outro momento lançada, agora ela cruzou o outro lado do corpo. Antes de fora para dentro, hoje de dentro para fora. Expurgo o que entrou, espremendo até a última gota de sangue, para que tudo o que ali jazia, agora se vá. Através de mim, deixando estilhaços, ficam resíduos, que jamais me deixarão ser a mesma, afinal, mudaram a condição do meu ser, do meu pensar, do meu respirar. Sobre as dores, o peito rasgou com mais intensidade para receber do que para despedir, uma vez que o novo gera mais do que o conhecido. E de adeus eu bem entendo. E antes que deixe que o cinismo tome conta da prosa, como sei que é o caminho fácil e já esperado, deixo que o vazio lateje e que sem se quer olhar para o ferimento, que ele feche, em seu tempo, às minhas costas.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

ordem e caos

aqui, posso te perguntar algo íntimo?
querida, eu estou lendo, e aparentemente não é tão difícil, o seu caos e a sua ordem estão em letras garrafais. não passa de uma garotinha severamente ferida. que se veste de girl power. deve ter sido necessário. eu até entendo boa parte. quem não foi ferido? fica tranquila, minha querida, eu não vou derreter, assim espero que você também não. ou talvez sim, na ponta dos meus dedos. fato é que você não é misteriosa, saiba disso. e que tal qual João e Maria, você deixou a trilha de pedacinhos de pão, se nenhum passarinho roubou alguns, eu vou chegar onde eu quero, saiba disso. enquanto ninguém ferir ninguém, eu vou me divertir, te convido a fazer o mesmo. eu quero ser seu amigo. mesmo que muito em breve eu me canse. você sabe, não estou tão interessado assim em muita coisa. senta aqui, vai, e acenda um cigarro. abra um vinho e toma cuidado com o problema. aí me conta coisas horrorosas pra ver mina cara de assustado. para de me beijar pra me ouvir falar. e então te entrego respeito, um par de óculos quebrados e piadas de biólogo. aparentemente o combo me deixa pedir música no fantástico. afinal, no meu caos ou no seu?

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Ecos

Quando eu era mais nova, tinha uma ilusão de que paixão era amor. Sabe, aqueles altos e baixos, as borboletas no estômago, as mãos suando e algo que batesse de cara. Depois de vários tombos, eu compreendi que muito pelo contrário, o amor é paz, quietude, rotina que não cansa, silêncio que não incomoda, falas que não agridem. Não é que não possa ter paixão, mas o amor grita baixinho, não aprisiona, não força, não implora. E que relação é construção, relacionamento é processo, é querer escolher a mesma pessoa dia após dia. E mais importante é saber que cada pessoa tem um limite, e que permanecer não deve nem pode ser penoso. Saber estar, saber partir, saber deixar entrar, saber deixar sair. E assim, aprendi a me amar, estar solitária e em silêncio não me incomoda, me cobrar tanto não pode ser rotina, que eu preciso me cultivar e me regar, arrumar a minha mente e saber meus limites, saber até onde eu posso ir, de onde preciso ir embora. Fiz por mim o que eu tentei fazer pelos outros e pasme, funciona (na maior parte dos dias). E foi assim que aprendi de verdade o que é o amor.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Me escreve num poema?

Coloca palavras para descrever o que você vê em mim. Usa todos seus jeitos para explicar como suas mãos encostariam nas minhas coxas. Faz um poema meu. Me eterniza num amontoado de palavras, que só eu sei que são para mim. Escreve uma fala minha, finge que é importante e me faz parecer interessante. Descreve seus dedos percorrendo as minhas costas desnudas, o cheiro do meu cabelo, o gosto do meu beijo. Põe no papel seus pensamentos impuros sobre nós, ou os mais puros que te vier na cabeça. Digita meu nome, me descreve com detalhes, conta sobre mim, me faça real. Por favor.

domingo, 5 de março de 2023

ainda que não

Eu costumava achar que as garotas não gostavam de verdade de piña colada. Achava que elas só pediam porque era um drink bonito, e fazia com que elas parecessem mais atraentes. Eu não entendia nada sobre mulheres, no final das contas. Lembro de pensar que, se estavam num bar, com suas amigas, elas estavam disponíveis, ou melhor, em busca de alguém igualmente disponível. Que blasfêmia, eu diria hoje. E foi assim que a conheci, vendo ela pedir uma segunda piña colada, num bar, com mais duas amigas.
Eu sabia que era a segunda porque desde que eu cheguei, não pude tirar os olhos dela, e ela bebeu a primeira taça incrivelmente rápido para quem apenas queria posar com um drink. O que mais me surpreendeu, ao longo das observações mentais que eu fazia, era que ela simplesmente não checava o telefone, nem quando as outras duas encaravam as suas telas, ela se mantinha no assunto, ou sustentava ele enquanto pudesse.
A minha mesa estava próxima ao ponto que eu conseguia ouvir o timbre da voz dela, mas não o suficiente para identificar suas palavras que saiam misturadas ao som ambiente. E porque ela simplesmente não podia olhar ao redor? Conferir se alguém ali era digno da atenção dela? Fui ficando impaciente para ser notado e pedi ao garçom para que, quando ela pedisse outro drink, que fosse debitado na minha comanda.
Eu tentei ao máximo não vigiar o processo, mas não pude deixar de perceber quando o garçom apontou levemente para mim, e então os nossos olhares se cruzaram. Ela levantou a taça, como se brindasse comigo e abriu um sorriso minúsculo. Levantei minha cerveja e retribuí o sorriso, porém o meu deve ter sido bem mais satisfeito do que eu gostaria que ela percebesse. Aí fiquei sem saber o que fazer, eu nunca tinha feito nada parecido, e sei lá, nos filmes isso parecia uma fórmula mágica, só que ali, nada acontecia.
Na volta do banheiro, encontrei ela no corredor. Usei meu olhar mais sedutor e disse oi. Ela me sorriu de volta e franziu as sobrancelhas. "Oi, obrigada pelo drink, mas eu estou realmente apertada". E saiu corredor a fora, enquanto eu permaneci parado, tentando decidir se esperava ali, ou voltava pra mesa, ou desistia de tudo e ia pra casa. Acho que demorei tempo demais para resolver, porque ela encostou no meu ombro e disse "pronto, agora sim consigo falar com você".

Três meses depois, segurando minha xícara de café, sentado no sofá, assistindo fórmula 1, ela parou na minha frente e disse que precisava ir pra casa. Eu sabia o que estava implícito ali. Ela não queria mais estar comigo, queria estar sozinha. E eu fiz que sim, com um aceno de cabeça.
Eu sei que em algum momento eu a fiz acreditar que havia paixão, que eu a respeitava, que era genuíno. E não que isso fosse mentira, mas não durou. Não durou porque eu entendi que ela não estava procurando ninguém, e que se eu desejava ser um alguém para ela, eu precisava ser diferente, e eu não era. E eu até quis mesmo ser, mas demorei a entender que ela realmente gostava de piña colada, que é possível ser dona de si e se perder de vez em quando, que teriam dias bons e dias ruins. Demorei para notar que eu precisava mais dela, que ela de mim, e que essa minha necessidade nos levaria ao fracasso.
Eu deveria apenas querê-la ali, e não precisar. Deveria ter ouvido melhor o que ela não disse, e mais ainda, o que ela disse repetidas vezes. Deveria ter pedido que ela ficasse naquela manhã de domingo.

Um ano depois eu ainda remexo nessas memórias, é estranho o quanto dá para guardar recordações de algo que foi tão breve. Ela se tornou um amontoado de frases e beijos e mãos na minha mente, e quando eu visito essa poeira debaixo do tapete, sempre penso que não é possível que foram só três meses. E toda vez que isso volta na minha cabeça, me lembro do quanto eu gostei dela, do quanto eu gostei de mim ao lado dela, e do quanto eu queria que tivesse durado. Se eu tivesse uma segunda chance, eu tentaria fazer diferente, mas isso já não importa mais.
Soube que ela se mudou e agora divide um apartamento com seu namorado, que visitou Machu Pichu e que usa tons de bege. Eu ainda visto jeans e camisetas pretas, uso twitter, e me pergunto todos os dias se algum dia ainda vou vê-la novamente.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

vinho no copo americano

"Hoje é sobre você". Não era.

Nunca foi sobre mim, subindo a rua da igreja, jogando poker, vestindo sua blusa de frio ou assistindo Elizabeth Town. Nunca foi sobre o quanto o meu estômago revira, ainda hoje, quando você diz linda. Nunca foi em qual cenário teria funcionado, ou o que nós poderíamos ter feito diferente. E mesmo quando eu tento deixar tudo na primeira pessoa, dizer o que eu me lembrei, o que eu senti, o que eu pensei, o que eu quis, a conjugação verbal está toda errada, em tempo e em pessoa. Porque eu não vivi sozinha, eu não senti sozinha, eu não te quis sozinha. E as reticências, com essa mania de buscar o ponto final, sem saber que vão deixando um monte de vírgulas no caminho, vão encontrando seu modo próprio de revirar, reviver, revelar. Desculpas, memórias vividas e apagadas abrem um parêntese, que nós não somos nem um pouco capazes de fechar. Porque eu tenho pensamentos recorrentes sobre você, e era exatamente isso que você queria ouvir. E você fez as perguntas corretas para que as respostas fossem reveladas, me despindo de qualquer desculpa ou pudor. Você me colocou exatamente onde você queria, porque você queria, e porque você já sabia todas as coisas que eu não te disse, e não te revelei antes, porque elas estavam esperando você dizer o seu pensamento de uma outra vida: "Essa mulher é minha".

terça-feira, 5 de julho de 2022

em + ela = nela

Ela quebrou o ovo e caiu uma casquinha na frigideira. Foi assim que ela começou a chorar. Porque caiu um pedaço da casca na frigideira. Assim ela percebeu o quanto estava vulnerável. Fungou, limpou o nariz na manga do moletom vermelho e olhou na janela, a tampa do alçapão do prédio vizinho estava torta. Há dias fazia frio lá fora, naquele dia fazia frio ali dentro, dentro dela. Mais tarde, ainda no mesmo dia ela se deparou com algumas coisas que, no seu íntimo, pareciam estar sangrando, mesmo quando ela dizia ao mundo que não estava. Ela estava toda à flor da pele, tudo poderia ser um risco iminente. Decidida, abriu o editor de textos e ao ver a página em branco ela pensou o quanto se sentia daquela exata mesma forma, em branco, nula, vazia, rasa e ao mesmo tempo profunda. Escreveu meia dúzia de palavras e viu que não ia funcionar. Vagou pelo apartamento, sozinha, em silêncio. Permaneceu na penumbra por mais alguns minutos, adaptando as vistas ao breu, e chorou novamente. O que doía agora já não eram os outros, suas decisões, suas atitudes, seus escândalos, o que incomodava agora era o que estava do lado de dentro, a tempestade que insistia em cair dos olhos porque transbordava dos pensamentos e sentimentos, a sensação de desespero ao realizar a sua responsabilidade em cada atitude que a colocou ali, no meio de uma sala meio vazia, numa cidade que não é sua, solitária e descontente. Ela já tinha algumas ferramentas para lidar com tudo isso, mas naquele momento ela não tinha forças para se lembrar de qualquer cartão de enfrentamento. Voltou para a cama, deitou encolhida, dormiu torcendo para que amanhã ou depois fosse diferente.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Será só imaginação?

Disseram tanta coisa sobre ela que eu não sei o que devo acreditar. Disseram que ela faz convites diferentes, sem pretensão. Me falaram que ela fala sobre assuntos sérios no meio de um domingo de preguiça. Ouvi dizer que ela espera o teor alcoólico para falar algumas outras coisas. Fiquei sabendo que ela chora sozinha, ri acompanhada e escreve num após. Soube que ela tenta, de verdade. Escutei por aí que ele não desiste do que ela quer. Espero que algumas partes sejam verídicas.

terça-feira, 7 de junho de 2022

você realmente acredita nisso?

Levei um tempo para - qual seria a palavra aqui? - compreender. Uso compreender porque definitivamente eu não sei qual a melhor definição do que foi esse ano. Em vários momentos eu me senti infeliz, noutros me senti injustiçada, em alguns, livre, em outros senti um estado de completude. Não dá para explicar tudo o que eu vivi, também não dá para mensurar a intensidade de todas as coisas que eu senti. Mas guardei um monte de sentimentos amontoados que, vez ou outra, eu visitava debaixo do tapete. Eu já sabia que não devia ter feito isso, que era sofrimento caçado com as duas mãos, mas ainda assim, eu o fazia. Até mesmo as feridas antigas eu abria, e conferia a cicatriz, ainda dói se eu apertar bem aqui? Se eu me lembrar de fotos tiradas no trilho do trem, ainda vai me gerar aquele incômodo no estômago? E se eu tentar me lembrar do som da risada e não conseguir? Ao mesmo tempo que eu já sabia que invariavelmente o tempo varreria tudo, tiraria a poeira e deixaria a verdade ali, escancarada. É triste, bem triste ver o fim, mas nem de longe é tão triste quanto se agarrar ao passado pelo medo do futuro. E olha só que coisa, eu já sabia também que estava segurando as minhas inseguranças apenas pelas pontas dos dedos, e que estava frágil demais para seguir mantendo esse fardo. E não digo que, mesmo com tudo já sabido, deixou de doer. Ah não, não mesmo. Mas eu fui capaz, de ouvir que é melhor assim, de aceitar, de perdoar, de deixar ao acaso, de compreender. Não diminuindo minha dor, mas compreendendo cada dia mais que as coisas são apenas como são e não como gostaríamos que fossem.

terça-feira, 3 de maio de 2022

eu jamais te escreveria isso

Queria escrever sobre coisas que eu estava sentindo mas esbarrei no vazio que ficou quando eu fui embora. Foi aí que percebi a imensidão do espaço que você habitava em mim, porque agora estou um pouco oco. Você preenchia o lado esquerdo da cama, o travesseiro mais baixo, meu par de meias pretas, meu moletom vermelho. Você era a cadeira do outro lado da mesa para jogar, fumar, tomar uma, comer, rir. Você era a maior apoiadora dos meus projetos, quem mais me incentivava a perseguir meus sonhos, hobbies, trabalhos. O banco do carona fica vazio e ninguém mais percebe que mandei lavar o carro, nem me pergunta se aquele vazamento está contido, ou se o pneu murchou de novo. Não tem ninguém para brilhar os olhos quando faço um filtro dos sonhos, ou para ficar triste que o cavalo do jogo morreu, ou torcer pela vigésima vez que tento ganhar no dominó. Não tenho com quem assistir aquelas séries que deixamos pelo meio do caminho, nem como comentar daqueles livros (inclusive, temos que destrocar alguns), por isso fui assistir outras coisas, das quais eu sei que nem se eu quisesse, você não gostaria de saber. Não tenho de onde voltar com o dia claro, todo desgrenhado após fazer amor no carro depois de uma noite de cervejas e urgências. Não tenho "bom dia amor", "tô pronta, pode vir", "nem acredito que vou te ver". Não recebo diamante negro no meio da tarde, nem donnuts, nem visitas inesperadas no meu trabalho que me deixam desconcertado. Só que também, não tenho que adivinhar qual o humor que terei que lidar no dia, não preciso registrar onde vou, com quem vou. Não preciso preocupar com meu destino, nem como as minhas horas gastas com jogos, muito menos com o nosso futuro. E foi assim que fui mudando de vida, fui indo para outra direção, a qual você permanece cada vez mais no vazio, enquanto eu preencho ele de atividades extracurriculares para que nada me faça, nem por um instante, te querer aqui de volta.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

um pouco mais

Não sei ficar no raso. No mar, na piscina, na amizade, no amor. Só sei mergulhar, só sei que a sensação de me jogar e afundar é o que me move.
Leio livros intensamente, enfio a cara na cachaça, faço ligações de horas, bebo uma garrafa de café, fumo um maço, coloco três brincos, me visto de cores vibrantes. É que ficar no raso, com pouco, de leve, me causa incômodo. Parece que estou vivendo pouco, parece que está faltando alguma coisa.
Faço curso de finanças, de lettering, de crochê, de escrita. Tenho várias paixões, vários assuntos me interessam. É que se não for pra ser emocionada, eu prefiro que não seja. Se não for para ser intenso, o morno não me atrai.
Dou bom dia com coração, mando mensagem para minhas amigas dizendo o quanto eu as amo e admiro, ligo para minha família de vídeo para sentir suas emoções, choro muito na terapia, abraço minha cachorra com todo amor do mundo, beijo com intensidade, conto do meu dia como se fosse o mais interessante, leio textos e me emociono, assisto uma temporada inteira de algum seriado em 1 a 2 dias e depois fico triste porque acabou. É que eu preciso das emoções e dos sentimentos.
E aí quando acaba eu fico triste, quando me despeço eu fico mal, às vezes é até dor física mesmo, angústia, porque de bom e de ruim é tudo muito. E eu sequer julgo quem não consegue me entender, ou me acompanhar, ou decide me julgar, não é sobre vocês, é sobre mim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

física&química

É melhor não, mas a verdade é que eu gostaria de te ver de novo. Só para conferir se a mão iria continuar suando, o coração acelerado que chega a fazer a camiseta pular, e o sorriso ora fica estático, ora treme. Queria saber se quando eu te ver sorrir, se vai me dar uma vontade absurda de sorrir também, daquelas que mesmo quando você segura toda sua feição, ainda assim, os cantinhos da boca ficam incontrolavelmente virados para cima. Precisava saber se, quando você descansar os braços para cima, vai me dar uma vontade louca de colocar o meu corpo encostado no seu, e então vou precisar me controlar mentalmente e dizer para mim mesma que eu consigo permanecer onde estou. Fico pensando, quando nós dois cruzarmos novamente, será que cada poro do meu corpo já esqueceu o seu cheiro? Será que cada fio de cabelo já conseguiu desvencilhar dos seus dedos, se cada peça de roupa minha já não se lembra do chão do seu quarto, se meus pensamentos sozinha já sabem que devemos fantasiar sobre outra pessoa? É, acho melhor não cruzar o meu olhar no seu, já que eu não posso garantir como cada parte de mim reagiria.

domingo, 12 de dezembro de 2021

fala não.

 Há muito tempo não escrevo. E não é por falta de vontade, é mais por medo. Quando escrevo coloco todos os meus demônios na ponta dos dedos e ultimamente não tenho querido batalhas das quais não tenho certeza se posso vencer. Ontem mesmo eu estava pensando, troquei de perfume, deixei o cabelo crescer, mudei a alimentação, cortei os cochilos da tarde, tenho praticado higiene do sono, respeitei escolhas alheias, cumpri metas e horários, dediquei tempo e atenção a quem me fez o mesmo, dancei, conheci novos lugares e pessoas, me reuni com equipes maravilhosas de estágio, monitoria, faculdade, clínica, fórum, passei a assoprar canela no dia primeiro, cortei o açúcar do café, dei preferência para andar a pé, ouvi músicas novas e algumas velhas que evitava, chorei dirigindo e trabalhando e estudando e fazendo estágio e na supervisão e na monitoria e no caminho e fazendo almoço e limpando a casa e na terapia, assumi erros e escolhas, conheci alguém que sempre esteve comigo - eu. Foi um ano tão difícil, onde eu perdi e ganhei tanto, um ano que demorou passar e de repente é dezembro. Mas foi um ano, só um, que em breve fica para trás e será apenas uma memória, e assim preciso que seja, porque sinto que cresci tanto que não me cabe mais em 2021, preciso de espaço para continuar meu crescimento, e é por isso que não vejo a hora de chegar com o pé direito em 2022, porque eu quero mais, eu preciso de mais e eu mereço mais.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

sala de espera da terapia

Como me dizer constantemente que tudo vai ficar bem quando eu sei que nem tudo vai ficar bem?
É interessante como temos o hábito de nos auto confortar, o que na verdade, é apenas um acalento momentâneo, e preciso, nesses dias nada fáceis. Dizer para si mesmo que as coisas vão se ajeitar, que existe algo de positivo no meio desse caos todo, mesmo sem ter a menor certeza se isso é real. É que sim, as coisas vão se ajeitar, e sim, tem algo de positivo no meio do caos, mas às vezes, o que a gente quer é só viver aquele momento ruim, para depois conseguir sair de lá. A impressão é de panos quentes, compressa de água fria, chá de camomila. Viver o que há de melhor e de pior é tão necessário, entender de onde vem a frustração da expectativa, ou deixar o sentimento doer e saber quem causou aquele calo no pé. A gente tem uma mania de querer reprimir o choro, reprimir a tristeza e os sentimentos vistos como ruins. E tá tudo errado! Só se vai para frente se você compreender onde você pisou antes, onde ficaram pegadas, de onde você veio e quem você era dois passo atrás. Dizer que tudo vai ficar bem é um jeito de botar debaixo do tapete as coisas não tão boas para apenas pensar nas melhores que virão, e elas virão, só que quando sacudir tudo, quando aparecer outro revés, aquela sujeira toda vai virar avalanche, e aí, meu amigo, é quando a gente afunda. Não ter lidado com várias coisas ao longo do tempo faz com que, em uma pequena situação, apareçam gatilhos, sentimentos velhos, mágoas, e fica muito fácil cair nessa espiral. Portanto, tome cuidado com o conforto superficial que você se proporciona, ele pode até parecer gostoso, mas ele não é.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

epicentro

O sol que me rege me pede para que eu seja sempre ponderada, a balança sempre foi uma guia, medidas, libras, equilíbrio. Ao longo de 32 anos eu fui tentando me colocar ao centro de uma balança invisível para as outras pessoas, mas que, para mim, era onde eu pisava o tempo todo. Por medo de conflitos a escolha era me abster, por medo de decisões que pudessem ferir alguém, deixava de tomar por medo de não estar em harmonia. E assim, a mediação nunca foi uma tarefa árdua. Além disso, me adaptar ao meio e às pessoas era o meu cotidiano. Por melhor ou pior, me moldar ao que o destino me trouxesse, era algo corrriqueiro que sempre pensei que fosse natural e mais fácil. Hoje eu percebo que não, o custo de ter vivido uma vida inteira assim me deixou onde estou agora. Cada renúncia foi uma cicatriz, cada vez que deixei o "meu" pelo "seu", eu guardei um pouco de mim, e agora tá me dando um trabalhão encontrar onde ficaram esses pedacinhos meus por toda a minha história. Tenho me buscado constantemente, tenho me encontrado o tempo todo. E a minha companhia (que é a única que tenho tido há algum tempo) é super prazerosa, agora eu me dou bem comigo mesma. E se eu disser que foi um processo natural, ahh, eu estaria mentindo. Porque montar uma balança, subir nela e equilibrar ali durante todos esses anos, isso eu sei fazer. Mas descer de lá, encontrar caminhos e segui-los por mim, isso sim é dureza, parece que estou fazendo tantas coisas pela primeira vez, tomando decisões e construindo o meu caminho de tijolos amarelos. Só que ao invés de correr dos meus medos, eu tenho dado as mãos com eles e seguido, e tem dias que a gente deita sim em posição fetal e chora, mas tem dias que me despeço de alguns deles, e esses dias fazem valer a pena a caminhada. Amanhã eu fecho um ciclo, mas eu abro outro, com alguns medos velhos e outros novos, mas com a certeza de que eu não vou parar.

"Closing time, every new beginning comes from other beginning's end"

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

agora foi.

O tempo tá correndo, e eu tô tão longe de você. Fisicamente, geograficamente. Mas emocionalmente eu estou ao seu lado, estive em Bonito, estive no depósito, estive no seu banco do passageiro. Eu nunca fui embora, e você sabe bem disso. Porque esse mundo é grande demais para eu deixar ao acaso de te encontrar de novo. Hank Moodie me entenderia, dois fodidos. Mas eu não sou mais babaca, e de longe, deu para ver bem o contexto. Existe uma energia que emana da gente que qualquer pessoa consegue sentir, o ar se torna espesso, falta dar choque. E sinto que cada vez que te convido para mais um encontro, dou um pulo, de olhos fechados, para o precipício, e por mais medo que eu sinta, tudo isso me dá mais forças, de ser MESMO quem eu sou, de ir atrás do que eu quero, de te mostrar que não é por você, mas que é com você. Porque agora não parece mais ser difícil encontrar o caminho, não parece que vai dar tanto trabalho assim, sabe. E é cada coisa que eu escrevo só para dizer que te amo, ou me aproprio de frases alheias, no meio da tarde para dizer que sinto saudades. Porque se eu usar palavras puramente minhas, vai parecer mais do mesmo, e eu te garanto, nada aqui é mais o mesmo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

me dê a honra?

dois passos. dois para lá, dois para cá. dançamos conforme a música que tem tocado. não sei se está tocando tribo da periferia, ou pearl jam, ou maneva. não consigo falar nós sem que um nó apareça na minha garganta. é que nós nunca deixamos de existir, só que passou a ser laço, voltas, longas. e eu te vejo, das minhas lentes, com clareza, eu sei, eu sinto o gosto. porque a gente se mistura, porque nós não é eu e você, nós é o nosso laço, e então é algo único. dê dois passos para cá, onde estou, porque já dei dois para lá, e assim a nossa valsa segue.

domingo, 22 de agosto de 2021

existe amor em sg

E foi assim, depois de meses eu vi seu rosto iluminar com a minha chegada de surpresa. Senti o ar com os ventos ao contrário, o tipo de coisa que só acontece quando o amor está no ar. Eu disse que não queria ir embora, mas eu fui. Com o coração batendo tão forte que eu ouvia meu ritmo cardíaco, eu quis voltar. Em todos os sentidos, queria voltar no tempo, nos passos, voltar para seus braços, voltar para nós. E isso também ficou no ar. Eu já sabia, você já sabia. Este livro tem mais capítulos a serem escritos.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

resistência

O amor não acaba, ele existe em um amontoado de coisas. O amor está num vidro de perfume quebrado, está num chocolate com Nutella. O amor mantém numa carta escrita à mão ou numa imagem compartilhada por tantas pessoas. O amor mora num pote de coxinha, no trilho do trem. O amor mora na pesquisa de um telefone novo, num relógio no braço, no chaveiro da mochila. O amor troca a rota do carro, troca a foto que estava no porta retrato e guarda na gaveta. O amor escolhe outra cor de caneta da agenda, escolhe outro lugar para conhecer, mas ele está lá. Porque amor não acaba, ele muda para outro cômodo, e fica esperando se vai morar lá de vez ou se vai ver a luz do dia, espera pacientemente até que você decida o que vai fazer dele. Porque o amor é mais forte que nós, ele sobrevive onde nós juramos que não havia mais nada para florescer.